Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Marie is losing the plot

15
Nov18

As andorinhas voltam sempre ao ninho

Marie

Sempre disse que ia ficar em casa ate que a minha mãe morresse. Como se ela fosse a raiz que me prende ao sitio onde eu moro. A conversa sobre o ir e ficar sempre foi recorrente dentro do meu grupo de amigos. E  eu sempre quis muito ir. 

 

Vivo numa aldeia pequena: é tão pequena que o padeiro ainda deixa o pão no saco que costuma estar nos portões das casas; que ainda há roupa que se estende nas cordas que estão junto ao tanque onde se lavam os cobertores na aldeia. Que os cães andam soltos, e  que toda a gente sabe como se chamam e de quem são; que para encontrar pessoas na rua, sabe-se que é na hora de pegar e despegar, ao sábado antes ou depois da missa, ou então em ocasiões especificas, como os funerais ou na romaria da aldeia.

 

Arranjar emprego aqui não é fácil, sendo que trabalho há muito. Mas é o que eu digo à minha mãe: Não tenho filhos para criar nem para lhes por pão na mesa, por isso não ponho sequer a opção de fazer vida a trabalhar no campo. Por enquanto, porque sei que não preciso. Mas também sei  que se for preciso sei fazer a poda e a espampa. E os empregos, bem é como em todos os outros sítios, é para quem tem padrinhos. 

 

Mas voltando ao inicio, a minha mãe é a raiz que me segura aqui. E aqui não falo do amor que sinto por ela. Falo sim da necessidade que sinto - e quando sei que os meus irmãos não o fazem e duvido que o vão fazer - de cuidar dela, esse sentimento transforma-se quase em uma obrigação que imponho a mim mesma. 

 

Mas diz-me ela, para me sossegar, que as andorinhas voltam sempre ao ninho. E eu quero crer que as coordenadas do ninho e do colo nunca se esquecem. 

 

22
Jul18

uma hora e meia

Marie

Na empresa onde estou a estagiar, as pessoas do meu departamento vão almoçar por turnos, e nem sempre tenho a sorte de almoçar com as pessoas com que me dou melhor, o que me leva a falar menos que o habitual. Quando uma das minhas colegas me perguntou porque é que estava tão calada, em vez de lhe dizer que a achava desinteressante e que não tinha nada para partilhar com ela,  disse-lhe que por norma, as refeições que faço, faço-as sempre em silencio, por causa do telejornal. 

O que não deixa de ser verdade, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, sempre que começávamos a falar de mais  a minha mãe mandava-nos calar porque queria ouvir as noticias,  não sei se queria ouvir mesmo as noticias ou só não nos queria ouvir. Por isso cresci a almoçar/jantar em silencio e quase sempre a ouvir as noticias. 

Quase toda a gente que estava naquela mesa começou a dizer que eles não: que a hora da refeição era para falar sobre o dia, para estar com a família,  e que muitos deles nem sequer ligavam a televisão. 

E eu, como boa ovelha negra do rebanho que sou, continuei, calada, a separar os feijões do arroz, enquanto os ouvia. O que me deixou tranquila foi perceber que não preciso daquela hora e meia para estar e falar com a minha mãe.

 

Que enquanto eu trato e mimo os cães e ela está a tratar das galinhas ela fala-me sobre o trabalho dela; que enquanto ela trata do jardim e eu estendo e apanho roupa, eu conto-lhe as parvoíces que vou fazendo;  Que enquanto ela trata da horta eu cato os bichinhos das folhas das batatas, falamos sobre o que se passa na aldeia; Que nos sentamos no banco de pedra do jardim, eu a fumar um cigarro e ela a ver os montes no horizonte, eu lhe digo como afinal voltar a casa, depois de três anos de universidade não é assim tão mau. 

23
Jun18

Sobre o saquinho de pele e ossos em que habito.

Marie

  As coisas mais parvas que já me disseram, mais que umas dez vezes, sobre o meu corpo ou aspecto físico, sendo que quase nada faço para que isso aconteça. E são, maioritariamente, fruto da preguiça ou da genética ( embora a minha mãe afirme que seja da ruindade).  

 

  "Quem me dera ser como tu  e poder comer aquilo que me apetece." Tenho um corpo que está dentro dos "padrões" impostos pela sociedade. Mas a verdade é que não me importo se estou cinco quilos mais gorda ou mais magra, e com essa variação de peso que vou tendo ate tenho estrias, outra coisa do demónio. Não faço dietas, como o que me apetece e o único exercício físico que faço é subir e descer escadas de casa; "Qualquer trapinho te fica bem." Antes de mais odeio todo o processo de comprar roupa, e quando compro é quase sempre roupa preta/branca ou de ganga. Por isso também não é muito difícil de errar. Quanto ao calçado, ando maioritariamente de Dr. Martens, Vans ou all star. Veja-se bem a criatividade da pessoa e o tempo que demora a escolher outfits. 

 

    "Não estas maquilhada? Quem me dera ser como tu!". Quase que me sinto pronta a subir a um pódio e receber uma medalha.  Dizem-mo, maioritariamente, quando saio à noite. São quase sempre outras miúdas que mo dizem. Embora também já tenha havido rapazes que mo disseram, não sei se só por surpresa, se para meter conversa. Tenho uma pele boa, e a única coisa que faço é, imagine-se só, lava-la. Embora tenha mais produtos de maquilhagem do que é recomendado(acabo por dar a maior parte à minha sobrinha, para que não se estraguem) e adore maquilhar as minhas amigas, tenho preguiça de o fazer a mim. 

 

   "O que é que fazes para ter os dentes tão brancos"Outro clássico da minha vida, sendo que bebo litros de café e fumo. E a única coisa que faço é lava-los, quando acordo, e se sair de casa depois de fazer alguma refeição. E por vezes até me  esqueço  de os lavar antes de dormir. E só não são dentes de publicidade de produtos dentífricos porque tenho um dentinho da frente que está ligeiramente encavalitado em cima do outro. 

 

    "Mas tu vais todos os dias ao cabeleireiro". Sobre o cabelo e outras pilosidades. Já perceberam que sou preguiçosa, não já? A maior parte dos dias em que lavo o cabelo deixo-o secar sem usar o secador. Se ficar ondulado, ficou; se ficar lambido como o cabelo de uma japonesa, ficou. E se por ventura me estiver a irritar, faço um rabo de cavalo e resolve-se a situação. Sobre as sobrancelhas, uma amiga de uma prima, uma vez foi a uma esteticista e saiu de lá quase sem sobrancelhas, fiquei traumatizada e por isso nunca deixei nenhuma tocar nas minhas. Tiro em casa algum pelinho que me esteja a irritar e para mim passam a estar arranjadas. E ainda sobre usar saias/vestidos/calções quando os pelos estão a crescer - o que para algumas das minhas amigas é impensável. Era mesmo o que mais faltava, não puder usar a roupa que me apetece porque os pelos ainda não estão grandes o suficientes para os depilar. 

 

   "Uma menina  tão gira como tu não pode estar triste" Este é o único que  me irrita, e que leva quase sempre com uma resposta torta. Venderam-vos aquele lema tão lindo e inspirador de que as magras e giras tem uma vida perfeita, ou que só por isso não pode ter outras inseguranças, ou ainda que tem que estar num estado de extrema felicidade. Inocentes, andam a ver demasiada publicidade e a ler demasiadas revistas meus amigos. 



22
Jun18

кошка

Marie

Foi a primeira palavra em russo que me ensinou. O meu amigo está neste momento de volta a terra das babushkas. Quando nos conheceu, uma das primeiras perguntas que nos fez foi se nós gostávamos de ir à Rússia. E a pergunta não foi um convite subentendido, esse chegou depois. Perguntou-nos para tentar perceber o que achávamos do país dele. Dissemos todos que sim, se tivéssemos oportunidade, que íamos. Já ele, confessou que se não fosse pela família nunca mais lá voltava. 

Voltar à Rússia, para ele, é perder a liberdade. E não me refiro à liberdade de chegar a casa às oito da manha depois de uma noitada, ou de não comer a sopa porque não lhe apetece. Refiro-me à liberdade de ser quem é, de se expressar, de poder dizer que gosta de outro rapaz. Sem correr o risco de ser perseguido ou ate morto. 

 

E os pais e as irmãs, embora falassem todos os dias, mesmo com imensas saudades ficaram tão felizes de o ver feliz aqui. Haviam de ver o esforço que a mãe dele, que nem o verbo to be sabe conjugar, fazia para falar inglês connosco. 


O meu amigo, que se ria quando trauteava-mos a Ukranian Bell Carol; Ria-se, ainda mais, quando ouvia o nome Rui; Que nos ensinou a fazer a verdadeira salada russa. Que dizia que Barcelona era a cidade favorita dele, mas foi connosco ao Porto e rápido mudou de ideias... mas de todas as memorias, aquele obrigado, antes de entrar no autocarro que o ia levar ao aeroporto foi a que mais me marcou. 


 

21
Jun18

Perspectivas

Marie

Em conversa com amigos: 

Eles - Tu é que tens sorte  que tens um carro.
Eu - Sim, mas ter que pagar gasóleo, selos, seguro, inspeções, idas ao mecânico com dinheiro que me sai do bolso é cá uma grande sorte. 

 

Fim de conversa.

19
Jun18

Fez-me tanta falta como um cão na missa

Marie

Dentro de uns dias começo o meu estágio curricular, mas ate chegar aqui, em que escrevo este post sem vontade de matar alguém, levou um bom tempo. 

Ora então, a coordenadora do meu curso é uma senhora que costuma vaguear pela faculdade. Lecciona uma das cadeiras opcionais, e por isso, para mim e para mais de metade dos estudante do meu ano, é só aquela senhora que costuma estar no bar do nosso pólo. 

No final do primeiro semestre, e como estamos no ultimo ano, marcou uma reunião geral para falar sobre os estágios curriculares. Onde quis à força toda que concorrêssemos todos ao Ministério dos Negócios Estrangeiros. Eu que sou uma indecisa, tive imensos meses a pensar sobre os possíveis locais de estágio. Pondo sempre de lado o MNE. Primeiro porque o único local do MNE que poderia concorrer não tinha aberto vagas este ano, segundo porque não tenho dinheiro e não me apetece estar a sobrecarregar a minha mãe com uma ida para fora, terceiro não quero  nem posso deixar a minha mãe sozinha. E saber o que não queremos já é meio caminho andado. Mas mesmo explicando-lhe isso, sempre que a encontrava lá me dizia ela " candidate-se ao MNE". 

Os meus colegas de curso, que pelas mesmas razoes ou por outras decidiram que também não se iam candidatar ao MNE, viram a partir dai um total desinteresse por parte dela. Subtilmente disse-nos "desemerdem-se". [E nós, ja sabendo que as pessoas que nos outros anos estagiaram no MNE, disseram que a experiência foi muito gira, gostaram muito das cidades, mas que não aprenderam nada.]

Duas colegas minhas, conseguiram entrevistas em empresas nas cidades delas. Comunicaram à coordenadora, e ela desejou-lhes boa sorte, encorajando-as. As entrevista correram bem, foram aceites os estágios por parte da empresas, a papelada e protocolos  todos preenchidos, só faltava a assinatura da  coordenadora. Passado uns dias, encontro uma dessas colegas na biblioteca, a chorar, perguntei-lhe o que se passava. Contou-me que não tinha conseguido o estágio porque a coordenadora não tinha aceite, o da outra tambem foi recusado. E eu, já em pânico, porque nunca na vida ia conseguir um estágio. Melhor, um estagio que ela aceitasse(e, isto devíamos estar em Fevereiro)

Durante meses isto não me deixou ter uma noite de sono descansada, estava-me a sentir completamente sozinha, principalmente porque não sabia como fazer as coisas, estando-me a sentir ao deus dará.  Ate que me decidi,  mandei uma candidatura espontânea para uma empresa, e informei  a coordenadora, expliquei-lhe qual era a empresa e expressei-lhe de forma muito clara a minha vontade de estagiar naquele local. Ela, como às minhas colegas, desejou-me boa sorte e eu disse-lhe logo que se fosse aceite era para estagiar naquele local: que não queria estar a perder o meu tempo, nem tempo da pessoa que me ia estar a entrevistar para depois ela decidir que não aprovava. 

No final da entrevista disseram-me logo que aceitaram o estagio e enviaram-me  toda a papelada que a coordenadora de curso precisava. Seguiu-se uma troca de emails interminável, entre mim  e a coordenadora. E eu a perceber que ela estava comigo entalada na garganta. Os meus colegas que me contaram a experiência que eles estavam a ter a mesma experiência e eu a perceber que as situações deles também não estavam melhores. Toda a gente a reclamar da senhora, mas quando a viam era como se tudo estivesse a correr às mil maravilhas. Ate que num dia, nos cruzamos com ela, e foi quando nos perguntou sobre os estágios. Eu que já estava farta daquela situação toda, irritei-me, quando ela me pediu que lhe enviasse o contacto da minha orientadora, porque já o tinha feito sete vezes. E embora tenha tentado  falar da maneira mais cordial com ela, ficou a perceber que penso que lhe falta  profissionalismo e competência, que só por acaso são uma das coisas que me tiram do serio. 

Nesse mesmo dia, pediu-me que pusesse a orientadora em CC, e é cómico ler aqueles emails e perceber o tom com que me escreve  e o tom de lambe cu com que escreve à minha orientadora.  Mais cómico ainda é perceber que os meus colegas que conseguiram estágio na mesma empresa, embora num local diferente ( no caso deles, por intermédio de uma professora que conhece pessoas na mesma empresa) tiveram a vida super facilitada, sem qualquer questão ou entrave levantados. 

Conclusão,  aquela pessoa que supostamente- e por isso recebe um extra chorudo no ordenado- nos devia dar algum suporte neste tipo de situações, fez-me tanta falta como um cão na missa. 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D