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Marie is losing the plot

27
Dez18

Uma das cartas que nunca saíram da gaveta

Marie

Ana, 

Nunca tive muitos amigos. E para mim os amigos  são o mais importante que se pode ter neste mundo. Há uma afinidade que se cria de uma forma inexplicável. Uma decisão que nem sempre é feita por nos, mas pelas circunstâncias. Os amigos são a família que se pode escolher, não é o que dizem? 

 

Chegaste de mansinho à minha vida, deixei-te entrar, mesmo que tenhas entrado sem bater.  Agora que tenho a frieza de poder olhar com distância , vejo que não devia ter sido tão ingénua. Mas já la vamos. 


Fomos amigas durante um ano: passei a maior parte desse tempo contigo. Rimos e choramos, partilhamos a nossa existência. Éramos inquestionavelmente amigas. Ou assim pensava eu. 


Fizeste as tuas escolhas, afastamos-nos, não só geograficamente, mas emocionalmente, e para isso não há desculpas. 

 

Ao longo do tempo fui percebendo as pontas soltas que ias deixando. É natural que alguém tão inseguro como tu minta para ser aceite. Não me importei com isso, mas passando a fase inicial, as mentiras para alem de serem óbvias eram também escusadas. Contavas a tua versão da historia, e se essa não te convinha, romantizava-la. 

 


Saíste do meu circulo de amigos, saíste da minha vida, e mesmo assim , aqui estou eu a escrever-te. Irónico, não é?  Sabes porque? Não sei  em que gaveta arrumar pessoas como tu! Não estou habituada a ter pessoas falsas como amigas. com quem partilho o meu tempo e a minha vida. Ao invés, lido com elas o estritamente necessário. 

 

E quando ainda me falam de ti , respondo sempre que te desejo o melhor. E é verdade!
Não te tenho rancor, não te tenho ódio. Quero só que te mantenhas afastada de mim. Já me magoaste uma vez e eu curei-me de ti. Por mim. Porque eu resolvo-me a mim própria e não preciso de estratagemas. 

A partir de hoje, quando mencionarem o teu nome, vou resignar-me ao silencio, porque pelo respeito que tenho por mim é isso que tu mereces. 

 

24 de Agosto de 2018

 

22
Nov18

é só isto.

Marie

Reparei agora, e este blogue já tem quase um ano, que há um erro ortográfico/gramatical no nome do blogue.  E vai continuar a ter, porque sou preguiçosa e não me apetece estar a fazer um novo ( mesmo que tenha sido feito no paint e tenha demorado dois minutos). 

15
Nov18

As andorinhas voltam sempre ao ninho

Marie

Sempre disse que ia ficar em casa ate que a minha mãe morresse. Como se ela fosse a raiz que me prende ao sitio onde eu moro. A conversa sobre o ir e ficar sempre foi recorrente dentro do meu grupo de amigos. E  eu sempre quis muito ir. 

 

Vivo numa aldeia pequena: é tão pequena que o padeiro ainda deixa o pão no saco que costuma estar nos portões das casas; que ainda há roupa que se estende nas cordas que estão junto ao tanque onde se lavam os cobertores na aldeia. Que os cães andam soltos, e  que toda a gente sabe como se chamam e de quem são; que para encontrar pessoas na rua, sabe-se que é na hora de pegar e despegar, ao sábado antes ou depois da missa, ou então em ocasiões especificas, como os funerais ou na romaria da aldeia.

 

Arranjar emprego aqui não é fácil, sendo que trabalho há muito. Mas é o que eu digo à minha mãe: Não tenho filhos para criar nem para lhes por pão na mesa, por isso não ponho sequer a opção de fazer vida a trabalhar no campo. Por enquanto, porque sei que não preciso. Mas também sei  que se for preciso sei fazer a poda e a espampa. E os empregos, bem é como em todos os outros sítios, é para quem tem padrinhos. 

 

Mas voltando ao inicio, a minha mãe é a raiz que me segura aqui. E aqui não falo do amor que sinto por ela. Falo sim da necessidade que sinto - e quando sei que os meus irmãos não o fazem e duvido que o vão fazer - de cuidar dela, esse sentimento transforma-se quase em uma obrigação que imponho a mim mesma. 

 

Mas diz-me ela, para me sossegar, que as andorinhas voltam sempre ao ninho. E eu quero crer que as coordenadas do ninho e do colo nunca se esquecem. 

 

22
Jul18

uma hora e meia

Marie

Na empresa onde estou a estagiar, as pessoas do meu departamento vão almoçar por turnos, e nem sempre tenho a sorte de almoçar com as pessoas com que me dou melhor, o que me leva a falar menos que o habitual. Quando uma das minhas colegas me perguntou porque é que estava tão calada, em vez de lhe dizer que a achava desinteressante e que não tinha nada para partilhar com ela,  disse-lhe que por norma, as refeições que faço, faço-as sempre em silencio, por causa do telejornal. 

O que não deixa de ser verdade, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, sempre que começávamos a falar de mais  a minha mãe mandava-nos calar porque queria ouvir as noticias,  não sei se queria ouvir mesmo as noticias ou só não nos queria ouvir. Por isso cresci a almoçar/jantar em silencio e quase sempre a ouvir as noticias. 

Quase toda a gente que estava naquela mesa começou a dizer que eles não: que a hora da refeição era para falar sobre o dia, para estar com a família,  e que muitos deles nem sequer ligavam a televisão. 

E eu, como boa ovelha negra do rebanho que sou, continuei, calada, a separar os feijões do arroz, enquanto os ouvia. O que me deixou tranquila foi perceber que não preciso daquela hora e meia para estar e falar com a minha mãe.

 

Que enquanto eu trato e mimo os cães e ela está a tratar das galinhas ela fala-me sobre o trabalho dela; que enquanto ela trata do jardim e eu estendo e apanho roupa, eu conto-lhe as parvoíces que vou fazendo;  Que enquanto ela trata da horta eu cato os bichinhos das folhas das batatas, falamos sobre o que se passa na aldeia; Que nos sentamos no banco de pedra do jardim, eu a fumar um cigarro e ela a ver os montes no horizonte, eu lhe digo como afinal voltar a casa, depois de três anos de universidade não é assim tão mau. 

23
Jun18

Sobre o saquinho de pele e ossos em que habito.

Marie

  As coisas mais parvas que já me disseram, mais que umas dez vezes, sobre o meu corpo ou aspecto físico, sendo que quase nada faço para que isso aconteça. E são, maioritariamente, fruto da preguiça ou da genética ( embora a minha mãe afirme que seja da ruindade).  

 

  "Quem me dera ser como tu  e poder comer aquilo que me apetece." Tenho um corpo que está dentro dos "padrões" impostos pela sociedade. Mas a verdade é que não me importo se estou cinco quilos mais gorda ou mais magra, e com essa variação de peso que vou tendo ate tenho estrias, outra coisa do demónio. Não faço dietas, como o que me apetece e o único exercício físico que faço é subir e descer escadas de casa; "Qualquer trapinho te fica bem." Antes de mais odeio todo o processo de comprar roupa, e quando compro é quase sempre roupa preta/branca ou de ganga. Por isso também não é muito difícil de errar. Quanto ao calçado, ando maioritariamente de Dr. Martens, Vans ou all star. Veja-se bem a criatividade da pessoa e o tempo que demora a escolher outfits. 

 

    "Não estas maquilhada? Quem me dera ser como tu!". Quase que me sinto pronta a subir a um pódio e receber uma medalha.  Dizem-mo, maioritariamente, quando saio à noite. São quase sempre outras miúdas que mo dizem. Embora também já tenha havido rapazes que mo disseram, não sei se só por surpresa, se para meter conversa. Tenho uma pele boa, e a única coisa que faço é, imagine-se só, lava-la. Embora tenha mais produtos de maquilhagem do que é recomendado(acabo por dar a maior parte à minha sobrinha, para que não se estraguem) e adore maquilhar as minhas amigas, tenho preguiça de o fazer a mim. 

 

   "O que é que fazes para ter os dentes tão brancos"Outro clássico da minha vida, sendo que bebo litros de café e fumo. E a única coisa que faço é lava-los, quando acordo, e se sair de casa depois de fazer alguma refeição. E por vezes até me  esqueço  de os lavar antes de dormir. E só não são dentes de publicidade de produtos dentífricos porque tenho um dentinho da frente que está ligeiramente encavalitado em cima do outro. 

 

    "Mas tu vais todos os dias ao cabeleireiro". Sobre o cabelo e outras pilosidades. Já perceberam que sou preguiçosa, não já? A maior parte dos dias em que lavo o cabelo deixo-o secar sem usar o secador. Se ficar ondulado, ficou; se ficar lambido como o cabelo de uma japonesa, ficou. E se por ventura me estiver a irritar, faço um rabo de cavalo e resolve-se a situação. Sobre as sobrancelhas, uma amiga de uma prima, uma vez foi a uma esteticista e saiu de lá quase sem sobrancelhas, fiquei traumatizada e por isso nunca deixei nenhuma tocar nas minhas. Tiro em casa algum pelinho que me esteja a irritar e para mim passam a estar arranjadas. E ainda sobre usar saias/vestidos/calções quando os pelos estão a crescer - o que para algumas das minhas amigas é impensável. Era mesmo o que mais faltava, não puder usar a roupa que me apetece porque os pelos ainda não estão grandes o suficientes para os depilar. 

 

   "Uma menina  tão gira como tu não pode estar triste" Este é o único que  me irrita, e que leva quase sempre com uma resposta torta. Venderam-vos aquele lema tão lindo e inspirador de que as magras e giras tem uma vida perfeita, ou que só por isso não pode ter outras inseguranças, ou ainda que tem que estar num estado de extrema felicidade. Inocentes, andam a ver demasiada publicidade e a ler demasiadas revistas meus amigos. 



22
Jun18

кошка

Marie

Foi a primeira palavra em russo que me ensinou. O meu amigo está neste momento de volta a terra das babushkas. Quando nos conheceu, uma das primeiras perguntas que nos fez foi se nós gostávamos de ir à Rússia. E a pergunta não foi um convite subentendido, esse chegou depois. Perguntou-nos para tentar perceber o que achávamos do país dele. Dissemos todos que sim, se tivéssemos oportunidade, que íamos. Já ele, confessou que se não fosse pela família nunca mais lá voltava. 

Voltar à Rússia, para ele, é perder a liberdade. E não me refiro à liberdade de chegar a casa às oito da manha depois de uma noitada, ou de não comer a sopa porque não lhe apetece. Refiro-me à liberdade de ser quem é, de se expressar, de poder dizer que gosta de outro rapaz. Sem correr o risco de ser perseguido ou ate morto. 

 

E os pais e as irmãs, embora falassem todos os dias, mesmo com imensas saudades ficaram tão felizes de o ver feliz aqui. Haviam de ver o esforço que a mãe dele, que nem o verbo to be sabe conjugar, fazia para falar inglês connosco. 


O meu amigo, que se ria quando trauteava-mos a Ukranian Bell Carol; Ria-se, ainda mais, quando ouvia o nome Rui; Que nos ensinou a fazer a verdadeira salada russa. Que dizia que Barcelona era a cidade favorita dele, mas foi connosco ao Porto e rápido mudou de ideias... mas de todas as memorias, aquele obrigado, antes de entrar no autocarro que o ia levar ao aeroporto foi a que mais me marcou. 


 

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