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Marie is losing the plot

24
Mai19

Processo digestivo


Enquanto decidiamos o que haveríamos de jantar, eu e ela, chegamos a conclusão de que entre tudo em comum e entre tudo que que nos torna amigas, temos a gigantesca diferença com que tratamos as pessoas com as quais não temos afinidade: constatamos, por exemplo, que eu não sorrio a uma criança na rua, mas facilmente sorrio a empregada que nos está a servir no restaurante, tendo ela o comportamento contrário.

 

 

Talvez por isso,  depois da minha ida à casa de banho, o tédio, a curiosidade ou sei lá o que fez com que eu a encontrasse à conversa com o homem, que se sentou uns momentos antes, da mesa ao lado.

 

 

Conversa vai, conversa vem e ele diz-me " é por isso que estás sozinha" e eu engoli aquelas palavras em seco. Fiquei a pensar no "por isso". O assunto dissolveu-se, voltou-se a falar de trivialidades e merdas sem interesse nenhum.

 

Até que já no final do que seria aquela conversa, ele diz-me que eu era "self-centered", que foi a palavra mais polida e simpática que encontrou para me dizer que eu achava que tudo era sobre mim, que o mundo girava a minha volta e que eu era egoísta.

 

Disse-me aquilo sem a peneira da amizade, ou familiaridade . E eu mastiguei aquela palavra. E mastiguei. E mastiguei.


Agora feita a digestão, sei que para aquela palavra me incomodar tanto é porque lhe vi uma ponta de verdade.

 

 

27
Dez18

Uma das cartas que nunca saíram da gaveta

Ana, 

Nunca tive muitos amigos. E para mim os amigos  são o mais importante que se pode ter neste mundo. Há uma afinidade que se cria de uma forma inexplicável. Uma decisão que nem sempre é feita por nos, mas pelas circunstâncias. Os amigos são a família que se pode escolher, não é o que dizem? 

 

Chegaste de mansinho à minha vida, deixei-te entrar, mesmo que tenhas entrado sem bater.  Agora que tenho a frieza de poder olhar com distância , vejo que não devia ter sido tão ingénua. Mas já la vamos. 


Fomos amigas durante um ano: passei a maior parte desse tempo contigo. Rimos e choramos, partilhamos a nossa existência. Éramos inquestionavelmente amigas. Ou assim pensava eu. 


Fizeste as tuas escolhas, afastamos-nos, não só geograficamente, mas emocionalmente, e para isso não há desculpas. 

 

Ao longo do tempo fui percebendo as pontas soltas que ias deixando. É natural que alguém tão inseguro como tu minta para ser aceite. Não me importei com isso, mas passando a fase inicial, as mentiras para alem de serem óbvias eram também escusadas. Contavas a tua versão da historia, e se essa não te convinha, romantizava-la. 

 


Saíste do meu circulo de amigos, saíste da minha vida, e mesmo assim , aqui estou eu a escrever-te. Irónico, não é?  Sabes porque? Não sei  em que gaveta arrumar pessoas como tu! Não estou habituada a ter pessoas falsas como amigas. com quem partilho o meu tempo e a minha vida. Ao invés, lido com elas o estritamente necessário. 

 

E quando ainda me falam de ti , respondo sempre que te desejo o melhor. E é verdade!
Não te tenho rancor, não te tenho ódio. Quero só que te mantenhas afastada de mim. Já me magoaste uma vez e eu curei-me de ti. Por mim. Porque eu resolvo-me a mim própria e não preciso de estratagemas. 

A partir de hoje, quando mencionarem o teu nome, vou resignar-me ao silencio, porque pelo respeito que tenho por mim é isso que tu mereces. 

 

24 de Agosto de 2018

 

22
Nov18

é só isto.

Reparei agora, e este blogue já tem quase um ano, que há um erro ortográfico/gramatical no nome do blogue.  E vai continuar a ter, porque sou preguiçosa e não me apetece estar a fazer um novo ( mesmo que tenha sido feito no paint e tenha demorado dois minutos). 

15
Nov18

As andorinhas voltam sempre ao ninho

Sempre disse que ia ficar em casa ate que a minha mãe morresse. Como se ela fosse a raiz que me prende ao sitio onde eu moro. A conversa sobre o ir e ficar sempre foi recorrente dentro do meu grupo de amigos. E  eu sempre quis muito ir. 

 

Vivo numa aldeia pequena: é tão pequena que o padeiro ainda deixa o pão no saco que costuma estar nos portões das casas; que ainda há roupa que se estende nas cordas que estão junto ao tanque onde se lavam os cobertores na aldeia. Que os cães andam soltos, e  que toda a gente sabe como se chamam e de quem são; que para encontrar pessoas na rua, sabe-se que é na hora de pegar e despegar, ao sábado antes ou depois da missa, ou então em ocasiões especificas, como os funerais ou na romaria da aldeia.

 

Arranjar emprego aqui não é fácil, sendo que trabalho há muito. Mas é o que eu digo à minha mãe: Não tenho filhos para criar nem para lhes por pão na mesa, por isso não ponho sequer a opção de fazer vida a trabalhar no campo. Por enquanto, porque sei que não preciso. Mas também sei  que se for preciso sei fazer a poda e a espampa. E os empregos, bem é como em todos os outros sítios, é para quem tem padrinhos. 

 

Mas voltando ao inicio, a minha mãe é a raiz que me segura aqui. E aqui não falo do amor que sinto por ela. Falo sim da necessidade que sinto - e quando sei que os meus irmãos não o fazem e duvido que o vão fazer - de cuidar dela, esse sentimento transforma-se quase em uma obrigação que imponho a mim mesma. 

 

Mas diz-me ela, para me sossegar, que as andorinhas voltam sempre ao ninho. E eu quero crer que as coordenadas do ninho e do colo nunca se esquecem. 

 

22
Jul18

uma hora e meia

Na empresa onde estou a estagiar, as pessoas do meu departamento vão almoçar por turnos, e nem sempre tenho a sorte de almoçar com as pessoas com que me dou melhor, o que me leva a falar menos que o habitual. Quando uma das minhas colegas me perguntou porque é que estava tão calada, em vez de lhe dizer que a achava desinteressante e que não tinha nada para partilhar com ela,  disse-lhe que por norma, as refeições que faço, faço-as sempre em silencio, por causa do telejornal. 

O que não deixa de ser verdade, quando eu e o meu irmão éramos miúdos, sempre que começávamos a falar de mais  a minha mãe mandava-nos calar porque queria ouvir as noticias,  não sei se queria ouvir mesmo as noticias ou só não nos queria ouvir. Por isso cresci a almoçar/jantar em silencio e quase sempre a ouvir as noticias. 

Quase toda a gente que estava naquela mesa começou a dizer que eles não: que a hora da refeição era para falar sobre o dia, para estar com a família,  e que muitos deles nem sequer ligavam a televisão. 

E eu, como boa ovelha negra do rebanho que sou, continuei, calada, a separar os feijões do arroz, enquanto os ouvia. O que me deixou tranquila foi perceber que não preciso daquela hora e meia para estar e falar com a minha mãe.

 

Que enquanto eu trato e mimo os cães e ela está a tratar das galinhas ela fala-me sobre o trabalho dela; que enquanto ela trata do jardim e eu estendo e apanho roupa, eu conto-lhe as parvoíces que vou fazendo;  Que enquanto ela trata da horta eu cato os bichinhos das folhas das batatas, falamos sobre o que se passa na aldeia; Que nos sentamos no banco de pedra do jardim, eu a fumar um cigarro e ela a ver os montes no horizonte, eu lhe digo como afinal voltar a casa, depois de três anos de universidade não é assim tão mau. 

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