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Marie is losing the plot

31
Mar18

O meu abraço nunca lhe faltará

Tenho quatro irmãos. Somos duas raparigas e dois rapazes. Eu sou a mais nova. A que não foi planeada. A que veio fora de horas.

 

A minha irmã, que é a mais velha, tem quase 20 anos a mais que eu. Seguem-se os outros que tem 15 e 5 anos de diferença. Por isso, só pela diferença de idade, é fácil de perceber o porque de a educação ( numa forma geral) que a minha mãe nos deu ser diferente. Se eu em seis meses mudo, imaginem alguém em 20 anos.

 

Eu amo a minha irmã. É doida, neurótica, devia tomar calmantes, dosagem de cavalo, de oito em oito horas, mas mesmo assim eu amo-a. Mas as vezes esqueço-me disso.

 

Ela é ciumenta. Sempre foi, com os amigos, namorados, agora com o marido, e claro que os irmãos não estão livres dessa sorte. Quando eu nasci, sempre que ficava ao cuidado dela, o que acontecia muitas vezes porque a minha mãe tinha que trabalhar, deixava-me a chorar horas a fio. Fechava-me na despensa, as escurasx quando eu não queria comer ervilhas. De manhã, desligava-me a televisão, se percebia que eu já estava acordada para ver os desenhos animados. O que no final de contas tornava tudo mais divertido, quando tinha que ver televisão sem som - porque ao mínimo barulho a fera recambiava-me para a cama - e por isso, tinha que dar asas à imaginação para inventar as falas das personagens.

 

Lembro-me de ser tratada por ela como a coisa que também vivia cá por casa.

 

Quando eu tinha oito anos, teve um acidente de carro, grave, esteve internada durante três semanas. E eu durante essas três semanas, voltei a pegar no biberão. Parei de beber leite do biberão com quatro anos. E durante esse tempo, a única coisa que consegui meter no estômago foi leite. Deitou-se fora no dia em que ela voltou para casa.

 

Depois emigrou, esteve em dois ou três países diferentes. O meu grande passatempo desses tempos era ver álbuns de fotografias. As fotografias dela.

 

Quando voltava de férias, era um amor. Trazia-me roupa, chocolates, bonecas. Numa dessas vezes, em que estava cá de férias, apanhei-a de mau humor, berrou-me. Eu, vingativa, parti-lhe os perfumes todos.

 

Quando a vida quis que ela regressasse, para Portugal, para junto de nós, os ciúmes dela ,de mim-  que na altura eu pensava que o que se tinha passado na minha infância fosse aquele ciúme passageiro, que aparece quando chega um membro novo da família- voltaram.

 

Lembro-me que a primeira grande discussão que tivemos, eu devia ter uns dezasseis anos, foi sobre o meu comportamento. Porque eu saia à noite, e ela com a minha idade não podia. Porque ela ia para o campo trabalhar, e eu, até à data nunca tinha ido. Porque ela tratava a minha mãe por você, e eu como estava muito mal educada e indisciplinada, tratava - e ainda trato, aliás sou a única que a trata - por tu. Eram comparações entre as duas que nunca mais acabavam.

 

As comparações continuam até hoje.

 

Lembro-me que houve uma altura em que ela tentou reaproximar-se. Afinal éramos irmãs. E eu pensei porque não, conversava-mos, eu lá lhe ia contando as coisas estúpidas de adolescente que ia fazendo. Ficou chateada, quando se foi confessar à minha mãe e percebeu que ela já sabia de tudo. Eu fiquei triste. Nunca mais lhe contei nada.

 

No meu dia da anos veio almoçar a casa da minha mãe. Como era o meu aniversário ( e festa ou comemoração em que ela esteja presente que não acabe em discussão não é festa), pegou em tudo e mais alguma coisa para me provocar. Porque eu isto e tu  aquilo. Porque quando a minha mãe descobriu que ela fumava ficou uma semana sem lhe falar, e eu quando lhe disse que fumava pediu-me só para não fumar dentro de casa. Porque a minha mãe a trata pelo nome próprio e a mim por um diminutivo.

 

Ate que já se tornou uma espécie de  piada interna "do que será que ela se vai lembrar hoje?", surpreende-nos sempre.  

Hoje mandou-me uma SMS para ir lanchar com ela. Tem uma sorte  desgraçada, aquela  amargurada de merda, sabe que o meu abraço nunca lhe faltará .

25
Mar18

Domingo de Ramos

Ontem andava a  minha mãe muito atarefada a cortar uns raminhos da oliveira e a colher alecrim do jardim. Enquanto preparava o ramo - que estava longe de ficar decente - perguntei-lhe se estava a fazer  um ramo ou uma vassoura para limpar o galinheiro. 

 


De todos os irmãos, sou a única que todos os anos continua a entregar o ramo à madrinha. Não sei bem porque é que pararam,  se por já terem crescido, se o folar que costumavam receber já não lhes agradava, ou se a ligação que tinham com aquelas pessoas, que os meus pais decidiram que iam ser os nossos padrinhos, se perdeu. Pensando bem sou a única da família que mantém a tradição, nem os meus sobrinhos o fazem.

 

Não o vou benzer à igreja, porque não tenho paciência para missas nem para deuses - mas a minha mãe vai por mim. Acredita que se fosse por minha vontade, benzia-o com agua da torneira e a minha bênção seria muito menos católica. Mas muito mais divertida. 



Hoje, levantei-me cedo e fui-lhe entregar o ramo. Tomamos o pequeno almoço, juntas, chá e bolo de laranja, faz parte da nossa tradição. Enquanto conversávamos, perdi a noção de quantas vezes contive as lágrimas. O cabelo branco denuncia-lhe a velhice, mas pelo menos não lhe denuncia a doença,  a quem ela faz questão de sobreviver estoicamente.

 

 

Hoje é também o dia em que há um brinde a menos, por mim e pelo meu padrinho, que quis a sorte que partilhássemos o aniversario. "Às princesas, dá-se um beijinho na testa", costumava dizer ele quando me via.

 

 

24
Mar18

Outro tipo de vergonha alheia

Depois de ler este post, lembrei-me desta situação: 

 

Estava eu numa fila, para pagar, quando reparo que à minha frente esta um senhor amoroso. Aquele tipo de senhor que tem pinta de avô. Quando vê que eu reparo no livro que ele ia comprar diz-me: é para o meu neto. Sorriu-lhe, como quem ouviu o que me foi dito, mas já sem paciência para estar naquela fila muito mais tempo. 


Lá chegou a vez dele. O rapaz que o atendeu, a quando do pagamento, perguntou-lhe se tinha cartão de cliente. Ora pois que não tinha, explicou-lhe as inacreditáveis vantagens que aquele cartão lhe traria, o senhor convenceu-se, disse que sim e começaram a preencher a ficha de cliente. 

 

Entre aqueles dados básicos que se costumam pedir neste tipo de situação,  foi-lhe perguntada a profissão. Ao que o senhor responde : Juiz Desembargador. Ao ver que o rapaz só tinha escrito juiz, ele como quem estava a ver o seu orgulho a levar uma chicotada, diz-lhe: escreva mesmo desembargador. Pronto, foi aqui que eu quase me cuspi toda, levei a mão a testa e me perguntei se aquilo estava mesmo a acontecer.

 

(Nota: Um  juiz desembargador pode, por exemplo, rever as decisões dos juízes de primeira instância e modifica-las. É como se fosse “o juiz dos juízes”. Isso acontece quando uma das partes envolvidas questiona a sentença do tribunal, recorrendo ao recurso para que a decisão do juiz de primeira instância seja encaminhada para a segunda instância.) 



De modos que: o rapaz que o estava a atender,  a base de dados daquela loja e eu ficamos a saber: o NIF, o numero de telemóvel, a morada e ate que o senhor juiz desembargador tinha um netinho, entre outras informações de cariz privado.



Eu que nem sou das teorias das conspiração tenho noção do quanto esta informação pode valer, e,  sem  me cansar muito, consigo imaginar as formas mais requintadas e perversas de a usar. 


 

*"Direito à reserva da intimidade da vida privada", está legislado. E este senhor, ocupando o cargo que ocupa devia sabe-lo melhor do que ninguém. É como aquela historia de irmos ao supermercado comprar papel higiénico,  e lá se ouvir um: "Quer factura com numero de contribuinte?". A mim ninguém me paga para fazer o trabalho dos fiscais das finanças.

19
Mar18

apontamentos idiotas

  • Enquanto que não  escrevo aqui vou escrevendo cartas e bilhetinhos endereçados, em folhas soltas, que acabam sempre perdidos nas gavetas do meu quarto.

 

  • A mae de uma amiga minha devolveu-me um livro do Al Berto. Quase chorei. 

 

  • Ontem, enquanto lavava o cabelo, lembrei-me que tinha um blog. 

 

  • Hoje, uma senhora do centro de saude ligou-me, parece que não vou a um hospital desde 2007. 
02
Mar18

Tag 100 Perguntas que nunca ninguém te faria 3/10

 

 

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Na tua vida adulta, qual foi o valor mais baixo que já tiveste na tua conta bancária?  Ter menos que dez euros, depois de pagar as propinas,  renda e as contas da casa, na minha conta bancaria é habitual. 

 

Já algum suposto grande amigo te desiludiu a ponto de terminares a amizade?  Sim.

 

Se fosses um fruto qual serias?  Um abrunho. E não me confundam abrunhos com ameixas! 

 

Se tivesses que participar na Casa dos Segredos, irias entrar com que Segredo? "Nunca entrei num ginásio.". É verdade, aqui me confesso,  ate já estou a imaginar a cara de  choque dos outros concorrentes. 

 

Imagina que estás a concorrer ao Master Chef. És líder de equipa e por causa do teu comando a tua equipa é a derrotada. Tens o poder de escolher se queres participar numa prova eliminatória ou enviar um colega. O que farias?  Eu no Master Chef ?! Nem uma lata de atum consigo abrir sem me cortar quanto mais ter habilidade para competir no Master Chef. Mas se estivesse nesse universo paralelo, enviava um colega.

 

Estás a dormir completamente nua. De repente, um bando de bombeiros entra de rompante no teu quarto porque o prédio está a arder. Qual seria a tua primeira reacção?  Tentar perceber se  o prédio estava mesmo a arder e eles eram mesmo bombeiros ou se era alguma gracinha planeada pelos meus amigos.  Claro que entretanto arranjava algum trapinho para vestir. 

 

 

Qual foi a coisa mais tonta que fizeste, sabendo de antemão que não ia correr bem, mas mesmo assim fizeste e não correu bem?  Devia ter uns sete anos,  dois amigos mais aqui a estarola,  roubamos uma botelha, de uma horta, para o halloween. Foi numa sexta feira, e durante o fim de semana não se falou em mais nada aqui na aldeia. Na segunda feira, a nossa professora,  que nos conhecia de ginjeira, não sei como, descobriu que tínhamos sido nós.  Deu-nos um sermão, e obrigou-nos a ir com ela a casa da senhora  para lhe pedir desculpa.  

 

Qual era a tua paixoneta de infância? Era o Paulinho e os seus caracóis. No outro dia, a minha mãe comentou comigo que estava preso por trafico de droga. Eu e os bad boys. 

 

Qual seria a pior forma de morreres? Ser bicada até a morte por pombos. Odeio pombos.

 

Qual foi o período máximo de tempo que mantiveste a tua árvore de Natal montada após o término das festividades?  Normalmente fica na sala ate o final de Janeiro, mas já estamos em Março e o presépio ainda está na sala e acho que vai ficar ate à pascoa. 

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